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Moda e inclusão

13:55 Ingrid Sauer 0 Comments

Moda e inclusão: soluções para o guarda-roupa de um deficiente visual

Consultoria de estilo mudou a vida de empresário, trazendo praticidade e autoconfiança


Poucas roupas no guarda-roupa, porém todas escolhidas planejadamente. Um bom corte, o caimento adequado ao tipo de silhueta, diversas peças que combinem entre si, os chamados coringas. Setenta por cento das prateleiras do armário com vestes para o trabalho e as demais para as horas de lazer. Essas soluções mudaram a vida do empresário Carlos Wolke, 41 anos. Não apenas porque ele, sendo deficiente visual, tinha dificuldades em se vestir apropriadamente antes de conhecer o serviço de consultoria de estilo, mas especialmente por ter entendido que a imagem pessoal é importante para autoconfiança e a moda é grande aliada para passar a mensagem correta de quem você é.

Tudo começou quando a consultora Ingrid Sauer foi desenvolver os uniformes dos colaboradores da empresa de Carlos, a Pináculo, que produz equipamentos para telefonia e fica na cidade de Taquara, no Rio Grande do Sul. Ingrid conversou pessoalmente com ele para explicar seu serviço também como personal stylist. O serviço de consultoria de estilo funciona da seguinte forma: a personal vai até a casa do cliente, analisa todas as peças do armário e pede que ele experimente algumas para checar o caimento. Em seguida, explica porque certas vestes não valorizam o tipo físico ou cores da pessoa. “Ele tinha roupas que eram apertadas e que não serviam nele, que não combinavam com o tom de pele dele, porque é uma pessoa clara”, lembra Ingrid. Este é o momento de fazer a seleção do que fica e do que sai do guarda-roupa. “Tanto que, quando ela chegou lá tirou quase tudo que eu tinha no guarda-roupa”. Algumas peças podem ser reformadas, outras vão para doação. Feito isso é hora de ir às compras. Quando pode, Ingrid faz uma pré-seleção na loja e avisa o vendedor que virá novamente, trazendo seu cliente, o que estimula um melhor atendimento. 
Depois das compras, a personal volta até a casa e organiza as roupas novas, montando as combinações. No caso de Carlos, deficiente visual, para identificar cada peça, plaquinhas de acrílico são penduradas nos cabides. Carlos escreve em braille o nome e cor da peça de um lado e Ingrid escreve à caneta de outro lado da plaquinha. Assim, a empregada doméstica sabe como guardar cada roupa no lugar correto.

 Ingrid também a instrui sobre como lavar cada tipo de peça. As combinações, a personal envia por e-mail, já que Carlos tem um software no computador, que lê as telas. De qualquer forma, ele costuma memorizar como combinar cada peça, quando Ingrid explica pessoalmente. O mesmo e-mail também é impresso e fixado no interior do roupeiro para, eventualmente, a empregada ou a namorada poderem o ajudar. Os sapatos são todos pretos e Carlos os escolhe pelo toque. Meias e roupas íntimas também são todas pretas para não haver o risco de colocar meias de cores diferentes. As camisas que são sociais já ficam guardadas cada uma com a sua gravata. A personal também indicou mudanças no cabelo, o levando a um cabeleireiro. Para o novo corte sugeriu que passasse a usar gel ou pomada, dando um visual mais jovem e moderno. 

Quando tem alguma viagem, Carlos chama Ingrid, que sempre organiza suas malas. Ela descreve em uma folha todas as peças que estão sendo levadas e como podem ser usadas entre si. O funcionário da empresa que estiver o acompanhando durante a viagem indica quais peças podem ser utilizadas. No ano passado ele esteve na feira de Hannover, na Alemanha. “Foi a primeira feira internacional que fui, agora estou me preparando, fazendo um curso de inglês para ir pra China, porque nossos fornecedores estão lá”. Dos últimos anos pra cá muita coisa mudou. Antes, mesmo ele sendo o patrão, usava o mesmo uniforme dos funcionários, hoje veste camisa ou terno todos os dias. A auto-estima e a segurança melhoraram muito, assim como sua concepção sobre moda: “A imagem hoje eu considero muito importante, ela vende muito. Vende o trabalho, vende as nossas ideias... Eu considero hoje a imagem fundamental. Não é só a imagem, mas é parte de um contexto." 

Ingrid considera seu trabalho gratificante: “Essa é uma experiência nova e muito gratificante em todos os sentidos. Tu vês alguém que realmente melhorou a imagem, que confia em ti. E isso é muito legal, porque é uma troca. Acho que meus olhos olham por ele em algumas coisas e acho que isso é legal.” Carlos é o único cliente com necessidades especiais de Ingrid, mas ela está aberta para atender a todos.
Conheça um pouco da história de CarlosCarlos Wolke é natural de Rolante mas vive em Taquara. Ele ficou cego há sete anos, por causa da Retinose Pigmentar, uma doença que ocorre nas células da retina com lesões progressivas, afetando os dois olhos. Ele foi perdendo a visão desde criança e aos 20 anos o oftalmologista informou-lhe de que, em algum momento, a cegueira viria. Por causa da certeza que um dia deixaria de enxergar, Carlos vivia tenso, temeroso de que esse dia chegasse a qualquer momento. Evitava ao máximo sair de casa. “Até que eu fiquei cego. Daí passou, saiu um peso dos ombros. Aí comecei a aceitar ajuda de amigos, botar a mão no ombro pra sair na rua ou coisa assim”, desabafa.
O empresário começou a fazer tratamento psicológico para aceitar as mudanças, e segue com a terapia. Seu filho, hoje com 9 anos, o ajuda em algumas coisas em casa. Para o seu dia-a-dia, o computador é essencial. O software Virtual Vision lê o que está escrito nas telas, o mesmo ocorre no celular, com o softwarweTalks. A bengala e a calculadora que fala também estão sempre com ele. Atualmente, sua empresa tem um setor específico com projetos para inclusão social. Está produzindo um leitor de textos portátil, que vai poder auxiliar no cotidiano de um deficiente visual, inclusive lendo dinheiro. O aparelho está em fase de desenvolvimento, ainda sem previsão de lançamento. “Primeiro é aceitação do problema, segundo aceitar ajuda e buscar superar o problema . Foi basicamente o que eu fiz. Eu sei que muita gente não tem condições de fazer um tratamento psicológico, que é caro. Pra mim foi muito dificil no inicio, mas eu percebi que seria muito importante. Então é isso, é enfrentar, não se acomodar. É perceber que pessoas com deficiência tem capacidade pra fazer, não tudo, mas muita coisa. É estabelecer seus objetivos e ir atrás deles”.
Continuo atendendo o Carlos,a gora estamos preparando os looks de verão
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Ingrid Sauer

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